Sábado, Janeiro 30, 2010

O TEMPO NÃO PARA

"A gente não faz amigos, reconhêce-os".

Vinícius de Moraes"


Minha classe na sétima série, em 2000


Quando eu era criança tinha uma rua enorme que precisava caminhar para chegar a escola. Hoje, não demoro mais do que 5 minutos para percorrê-la. É estranho - e ao mesmo tempo fascinante - como as nossas ideias, convicções etc. se transformam com o tempo. E é bom que isso ocorra. Na escola, por exemplo, a gente passa a maior parte do tempo tentando impressionar pessoas das quais a gente não lembra mais nem o nome. Tinha um na minha sala que se gabava por saber desenhar o simbolo da marca FOX (ainda existe?) na lousa, até que um dia, quando chegamos, vimos que alguém tinha deixado um desenho muito melhor e com a frase "Aprende como se faz!". Foi o ponto de parar de desenhar para ele.

O que me atormenta é que sentimos que o tempo está passando não por nós mesmos, mas reparando nos que estão a nossa volta, aqueles amigos com os quais brincamos de esconde-esconde e pega-pega na rua.

O Rafael é policial e tem uma filha. Renan mora em São Paulo. A Ana Paula casou. Karina, minha melhor amiga em todos os anos de minha infância, também casou (nem nos vemos mais e um convite nem chegou às minhas mãos). Temos uma enfermeira, uma administradora, um psicólogo com mestrado, uma fisioterapeuta, um futuro publicitário, uma futura relações públicas etc etc. E até ontem, todos éramos aquelas crianças que íamos na escola com a cabeça já imaginando o que faríamos à noite, todos sentados na frente da casa de alguém.

Logo, não é à toa que também nos comparamos com esses amigos. Uma comparação de obras já realizadas. Tal tem namorada, carro do ano, mas não tem universidade. Fulano tem faculdade e está casado. Ciclano está solteiro e com um ótimo emprego e sem estudos. E eu? Bem, ...

Outra coisa que me espanta é perceber que aquelas crianças que víamos, irmãos e irmãs menores de nossos amigos, não são mais crianças. "Mas como cresceram rápido!"

Quando a gente é criança sonha em ser muitas coisas: artista, bombeiro, veterinário, astronauta, atleta; às vezes parece que crescer é como desistir dessas coisas uma a uma.Mas, é só acostumar. Existem horas que penso: estou me formando ... o que vou fazer da minha vida? Tem horas que acredito que seria tudo mais fácil se eu sonhasse com um futuro como alguns amigos meus: um emprego com carteira assinada - alguns na produção das empresas mesmo - com as contas para pagar, impostos, cidadão respeitado, com esposa, filhos, comida pronta quando chegar em casa, futebol às quartas e domingos. Mas a vida é uma caixinha de surpresas. A gente cresce, muda de amigos e de sonhos e torce para que no fim dê tudo certo.

Festa de "Bota Fora" da minha turma da faculdade, em 2009

Terça-feira, Janeiro 26, 2010

O HAITI NÃO É AQUI
O twitter tem várias utilidades, entre elas, a que mais gosto, é a oportunidade de disseminar opiniões sobre os mais diferentes assuntos, desde algum vídeo engraçado no Youtube, as brincadeiras, como a mais recente “Fatos sobre Sônia Abrão” (“O programa da Sônia Abrão não é feito ao vivo; é feito aos mortos” é o meu fato preferido.), uma notícia em destaque etc. Mas, difícil de acreditar, alguns participantes do microblog não parecem estar tão abertos a opiniões distintas daquelas que acreditam serem as corretas.

Um exemplo muito claro, e o qual me fez escrever tudo isso aqui, foi a confusão que gerou um tweet (para os leigos, postagem) da cantora Sandy. Nele, ela questionava a ajuda ao Haiti, país devastado pelo terremoto. Mas, não era uma crítica simples de quem não olha o lado de lá do muro porque não precisa de ajuda, mas sim, uma análise que acho muito pertinente: muitas vezes nos comovemos com a triste realidade do exterior e não olhamos o próprio vizinho, que pode estar em situação tão triste quanto. Não que a ajuda ao Haiti fosse um erro, mas a intensidade com a qual esta era feita, devia ser a mesma para os nossos irmãos brasileiros que passam fome, são vítimas das catástrofes naturais e precisam de nosso apoio, compaixão e amparo.

A opinião da cantora Sandy veio como uma luva para exemplificar aquilo que ouvi do também cantor Lobão em um programa de TV. Neste, a apresentadora ficou indignada com a afirmação do cantor que a mentalidade da bossa nova, movimento musical tão importante do país, não era boa. Lobão, então, soltou uma frase que será difícil de esquecer: “É engraçado como que no país da fofoca, opinião é tabu”. Tenho certeza que se você que está lendo é da área de comunicação fará um sim com a cabeça ou em pensamento, concordando com o cantor

Estou errado ou o “episódio Sandy” é a comprovação disso? É realmente muito engraçado que no país que passa tardes e mais tardes discutindo a vida alheia das celebridades, transforma em espetáculo a desgraça de pessoas e famílias inteiras, que este mesmo país pareça não aceitar a opinião de uma cantora que já foi capa de muitas revistas de fofoca.

A cantora Sandy exteriorizou a opinião de muitos brasileiros, como eu, que veem um sério problema em apenas se comover com o que acontece no exterior e esquecer aqueles que precisam da nossa ajuda aqui dentro, no Brasil. Minha amiga e jornalista Camila Delmondes (@CamilaDelmondes) certa vez, fez-me uma observação sobre a minha vontade de ajudar os outros nessas ações internacionais, como a que o Brasil faz no Haiti mesmo antes do terremoto. Ela me disse: E por que não ter essa mesma vontade de ajudar os brasileiros no nordeste, tão sofridos com a falta de oportunidades etc? Parei e refleti e por isso que quando a Sandy fez seu comentário no twitter, senti-me no dever de expor essa minha argumentação, convincente ou não. Ajudar o Haiti, sim, o Brasil, também.

Domingo, Janeiro 10, 2010

COTIDIANO

Esse minidocumentário produzido por mim e mais alguns colegas da faculdade mostra que o cotidiano, aparentemente sem graça e sempre igual, pode guardar muitas surpresas.


Sábado, Janeiro 09, 2010


Do dia em que me descobri um pouco italiano

Durante muito tempo escutei a expressão: “Madonna mia!”. Descendente de italianos da província de Padova, região norte da Itália, escutava meu avô dizer algumas palavras no idioma que aprendeu com os pais imigrantes. Ele reclamava em italiano quando eu e meus primos apanhávamos uva ainda verde, manga para comer com sal ou quando, sem nenhum motivo aparente, aparecia na soleira da porta apenas para reclamar, como que um exercício para as cordas vocais.

Meu pai diz que quando era criança, meus avôs, como qualquer casal, discutia, mas tudo em italiano, para que os filhos não entendessem o que era dito. Tão não entendiam que, mesmo sabendo que era uma discussão – até por conta do tom da voz -, achavam graça e riam. Durante meus primeiros oito anos de idade, tive uma relação com o idioma italiano e não me importava muito com isso, não dava grande importância.

Muitos amigos podem até questionar rindo, mas não me considerava uma pessoa muito ligada ao passado. Sempre preferia viver o hoje sem pensar muito no ontem ou anteontem. Aquela idéia de que águas passadas não movem moinhos. Mas as coisas mudaram com o passar dos anos. Principalmente quando, por destino ou não, ingressei em um curso através do “Circolo Italiano” da minha cidade, Amparo/SP. Uma entidade presidida por um grande ‘amico’, Giovanni Gianelli, que tenta, infelizmente aos trancos e barrancos, resgatar a cultura italiana através de festas, mostras de cinema, aulas do idioma entre outras atividades. Por que com tanta dificuldade? Porque praticamente todos os descendentes não têm interesse pela cultura dos antepassados. Apenas sabem que a origem da família é italiana, e isso para eles basta.

Confesso – hoje com até certo constrangimento - que durante muito tempo estive nesse grupo de desinteressados. Mas hoje, gosto de resgatar o passado. De querer lembrar das coisas da infância, como as brincadeiras, e mais longe e principalmente, do tempo que nem era nascido, da história da minha família.

Mas este resgate não significa que passei a dar menor importância em ser um brasileiro. Pelo contrário. Vejo que hoje, sabendo muito mais sobre meus bisavôs - que partiram da terra natal para construir uma vida distante da pobreza que assolou os camponeses na Itália pós-unificação -, sinto-me muito mais brasileiro. Sei que esse foi o pedaço de chão que eles escolheram para dar um futuro melhor aos filhos, netos e, posteriormente, para mim.

Quando minha irmã de onze anos me escuta falando algo ou cantando uma música no idioma de nossos bisavôs, brinca que sonha ser professora de italiano (além, claro de veterinária, artistas entre tantas outras coisas). Olho para ela e feliz digo: 'Va bene!'

Sábado, Janeiro 02, 2010

O QUE A DÉCADA NOS DEIXOU


Temos que concordar que a década foi tumultuada e cheia de surpresas. Dos ataques terroristas do dia 11 de setembro de 2001, passando pelo Big Brother Brasil (confesso que assisto), surgimento de fenômenos musicais como a divina (para sempre, amém) Amy Winehouse ou Lady Gaga (para alguns), guerras, morte do mito Michael Jackson entre tantos outros acontecimentos. Será uma década que ficará em nossas mentes.

Mas, para este post, ficarei com um fato que você certamente participou. O sucesso instantâneo de Susan Boyle. Sim, a cantora que vivia com um gato num pequeno vilarejo e que se transformou em uma das pessoas mais conhecidas do mundo após participar do programa “Britain’s got talent”.

Feia (sejamos sinceros), com cabelos desarrumados e uma candidata em potencial para uma platéia que queria rir. Ingredientes mais que suficientes para o deboche. Mas, como sabemos, até porque já alertei que esse fato você acompanhou de perto, ingredientes que não foram páreo para o talento dessa mulher de quase cinquenta anos e que “queria uma oportunidade”. Encantou o mundo com uma interpretação de “I dreamed a dream”. Coincidência ou não, a música traz na letra “Eu tive um sonho que minha vida seria tão diferente deste inferno que estou vivendo. Tão diferente daquilo que parecia ... E, agora, a vida matou o sonho que eu sonhei”. Boa explicação para o que Susan vivia e que se transformou em sonho. Seu CD de estreia é o mais vendido nos Estados Unidos.
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Por que escolhi Susan Boyle para falar da década? Explico (e espero que seja convincente). Ela antecipou uma coisa que será comum na próxima década: muitos anônimos virando celebridades através da internet.

Alguns exemplos já temos, até mesmo no Brasil, com Stefhany “e seu Cross Fox”. Minha amiga Deborah Zocchio me alertou rindo: “Não assista se você tem vergonha alheia!”. Mas, fiquei curioso. Tenho que confessar que não conseguia acreditar naquilo que via (e escutava, claro), ainda mais quando assisti aos vídeos relacionados no YouTube e pude constatar que o “Cross Fox” não era uma loucura, mas parte de um trabalho que reunia muitas outras “loucuras”. Não quero falar se gosto ou não, afinal, o Zeca Camargo fez isso e ficou “batendo boca”, no bom sentido, com muitos leitores em seu blog no G1, mas temos que concordar que o sucesso do vídeo na internet a vez sair do anonimato e hoje ser figura conhecida na TV e com contrato assinado com gravadora.

Alguém discorda que cada vez mais surgirão “famosos” na internet? E que teremos que conviver com eles, gostando ou não?

Segunda-feira, Dezembro 28, 2009

HISTÓRIA À VENDA



Se você procurar “Circolo Italiano” na lista telefônica da cidade de Amparo, interior do estado de São Paulo, não encontrará nem telefone, nem endereço. Uma entidade fantasma? Não, sem sede. O contato, difícil de encontrar, será o telefone da casa número 37, na Praça Meirelles Reis, moradia de Giovanni Giannelli, o presidente. Em janeiro, um curso do idioma italiano iria ser aberto na cidade, mas como não encontraram um espaço, foi transferido para a cidade vizinha, Pedreira. “Não temos sede e isso nos desprestigia do ponto de vista institucional. Eu trouxe tudo para minha casa. Lotei o meu quintal de coisas do Circolo. A culpa é de uma sociedade que não nota, nem dentre os próprios participantes da entidade, a relevância disso”, lamenta o presidente procurando as palavras. Os moradores não demonstram interesse por esta questão.

A cidade de Amparo traz essas contradições. Os amparenses são constituídos, em pelo menos 65%, de descendentes de italianos. Vão dos Marchiori, Pitarello, Fachini aos Mozer, Truzzi e Brunetto. Comem 1.500 pizzas em média a cada semana, feitas nas pizzarias e padarias da cidade. A mais pedida e mais barata, por volta de R$ 9,00, é a de mussarela. Compram discos como “As 15 Mais Italianas”, que traz clássicas como “Per Amore” e “Ti voglio Tanto Bene”, ou como o álbum “Un’Estate Lonte”, que dentre os CD’s italianos é o mais barato da principal loja desse ramo na cidade, e custa R$ 13,00. “Primavera in Antecipo” da cantora Laura Pausini é o mais caro: R$ 47,00. “Mas o mais procurado é o Andrea Bocelli”, comenta a vendedora Tânia Batoni.


Os amparenses escutam há 21 anos, todos os domingos, das 19 às 23 horas, o programa “Itália Romântica” e “Noturno Italiano”, das 23 às 24 horas, em uma das principais rádios da cidade. Mas eles não costumam pedir músicas neste idioma na rádio municipal, na qual somente uma ou duas músicas entram na programação durante a semana, costumeiramente no programa “Nostalgia”, transmitido todos os dias das 6 às 7 horas da manhã. Quando pedem, são “Dio Come Ti Amo” ou “Champagne”. “Às vezes coloco a Ornella Vanoni. Mas é por conta própria”, confessa a descendente de italianos e programadora da rádio, Cecília Beltramelli.

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Os amparenses também promovem missas rezadas em italiano, mas que deixam a imensa catedral vazia com apenas vinte ou trinta pessoas. Eles assistiram novelas nas quais o próprio município foi cenário. A primeira foi “Os Imigrantes”, transmitida pela rede Bandeirantes em 1985, filmada na fazenda São Sebastião. Em 1996, foi a vez da Rede Globo se encantar com a cidade e gravar na fazenda Engenho das Palmeiras as primeiras cenas da novela “O Rei do Gado”. Ambas traziam histórias de imigrantes italianos.

Trecho do primeiro capítulo da novela "O rei do gado". Cenas gravadas em Amparo/SP
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Um pouco do que ainda resta da Itália nos amparenses hoje compõe uma lista de abaixoassinado. A mobilização representa a vontade de que o patrimônio construído pelos italianos, um prédio majestoso inaugurado no coração da cidade em 23 de março de 1929 pela "Società di Mutua Assistenza Fra Italiani in Amparo", não seja vendido. Para os críticos significaria o fim da memória da colonização italiana. As lembranças de quase um século estão numa escadaria de perder o fôlego por cansaço e deslumbramento; no salão de festas que pode abrigar centenas de pessoas sem empurra-empurra, salas, palco e tantos outros espaços distribuídos nos mil e quatrocentos metros quadrados de história e beleza arquitetônica, e que o faz hoje ser um prédio tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (CONDEPHAAT).
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“Estamos lutando por um patrimônio não só da colônia italiana, mas da cidade. Queremos criar um instituto cultural”, fala com o brilho no olhar como das crianças que consulta todos os dias, o pediatra Pedro Antônio Armellini, sócio do Circolo Italiano e idealizador do seu embrião, o "Circolo Triveneto Lombardo di Amparo" que possuía sede na Rua Luís Leite, número 232. As paredes do consultório do médico são decoradas. Fotos de crianças sadias e risonhas dividem espaço com um grande mapa com o título “La Marca Trevigiana”. Mostra Treviso, a região da Itália na qual está a cidade de Riese Pio X onde nasceu o seu nono Beniamino Armellini, que chegou em 1889 no Brasil. A foto do papa que nasceu na cidade italiana e que hoje leva o nome do pontífice não está em lugar de destaque na parede do consultório, mas o simpático Armellini exibe aos que se mostram mais interessados. O médico é o grande responsável pela mobilização e pelo abaixoassinado, que na data da nossa conversa, continha 423 assinaturas. A primeira é de Giovanni Giannelli, também autor do texto, em manuscrito, que abre a manifestação. A segunda é do próprio Pedro Armellini. Um pouco abaixo, ainda na primeira página do livro preto de capa dura e com uma fotocópia de um recorte de jornal sobre o prédio, a assinatura do prefeito da cidade, Paulo Turato Miotta. “Ele também é descendente de italianos!”, explicou de forma mais que objetiva o médico ítalo-brasileiro.

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A "Società di Mutua Assistenza Fra Italiani in Amparo", ou somente "Mútua", como ficou conhecida, carrega consigo a história da imigração italiana no município. Sem previdência social, ideia ainda distante naquele início de século XX, os italianos encontravam as suas próprias saídas para suprir as necessidades que o poder público não atendia, como assistência médica, remédios ou serviços funerários. A sociedade formada por italianos consistia em fazer contribuições para as eventuais necessidades, angariando contribuições investidas, principalmente, em imóveis. O fundo arrecadado também era destinado à viagem de regresso para a terra natal aos que tinham o sonho de uma vida nova moído, como o café, que plantavam nas fazendas da cidade.
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A disputa pelo prédio da Mútua iniciou em agosto do ano passado. A associação o havia alugado na década de 1970 para a prefeitura, desde então, o aluguel passou a ser dividido entre os sócios. “Desviavam dinheiro público para dá-lo aos que não eram dono. Usurparam”, esbraveja em alto tom Pedro Armellini. Passados mais de 30 anos, o poder público construiu, em 2008, o Paço Municipal e devolveu o imóvel aos sócios. Iniciou-se ali, a discussão. Filhos, netos e até bisnetos de italianos que tinham parte no imóvel perderam qualquer interesse pelo bem. O engenheiro, que apoia seus 84 anos numa bengala, José Peccinini Petri, ainda traz a esperança de jovem. Ele herdou a parte na sociedade de seu pai, quando os irmãos pouco se importavam. Na Mútua, apenas um filho pode ser herdeiro. Petri confessa que os seus filhos também não sentem na veia, o sangue italiano. “Eles dizem que é para eu cuidar de tudo. Não querem se preocupar com isso”, resmunga enquanto procura, em seu “anarquivo” (apelido que deu aos seus arquivos por tamanha desorganização) alguns papeis, livros ou documentos que pudessem servir de informação para esta reportagem. “Nós (sócios) nos vemos apenas uma vez por mês, quando vamos receber o cheque com o pagamento do aluguel, de cerca de R$ 100. Eles me dizem: Petri, pegue esse cheque e vá embora, não nos crie problemas”.
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Petri traz muitos traços italianos. Emotivo, fala com as mãos e solta entre uma frase e outra, qualquer palavra italiana. Conta sobre a sua vida e muda de assunto rapidamente entre um diálogo e outro. “Nesses anos todos há muita coisa para contar”, ri de si mesmo. Austero e por vezes amável, ele esbraveja quando conta sobre a reforma feita pela prefeitura. Para devolver o prédio usado nesses anos todos, o poder público teve de reformá-lo, após a insistência de alguns sócios. A visita de engenheiro que faz na obra é perceptiva e detalhista. “Eu já disse aos outros membros da Mútua que não podemos aceitar o prédio nestas condições. A reforma está muito mal feita”. Mas, um tanto conformado, acrescenta: “A minha parte eu já fiz”. A parte que coube a Petri, por vontade, foi elaborar um projeto que prevê o funcionamento de um centro cultural ítalo-brasileiro. Ele sonha que aquele espaço seja um local voltado ao resgate da cultura italiana, com lojas de artesanato, salão de festas, aulas de idioma italiano, teatro, cinema etc. “No início do século, eles viram a necessidade da construção de um prédio para suas atividades, em especial para assistência aos seus associados. Hoje, as necessidades não são mais as mesmas do começo do século XX. Atualmente, os descendentes têm interesse na cidadania. A formação cultural é a que pode transformar os rumos da sociedade. Essa formação junto à cidadania é fantástica”, também argumenta Giovanni Giannelli.
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A Mútua foi criada em 3 de fevereiro de 1901, com nome inicial de Società di Beneficienza Italiana Mutuo Soccorso Rimpatrio di Amparo, e possuía cerca de 470 sócios. O nome foi alterado e “abrasileirado”, em 1937, por imposição do Estado Novo, instaurado pelo presidente Getúlio Vargas, que inseria no Brasil medidas nacionalistas. O nome passou para Sociedade Mútua Assistência, mas até hoje permanecem vivas as duas versões: em italiano e em português.
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Na inauguração da Mútua, a formalidade do documento manuscrito, deixava claro, em língua nativa - posteriormente traduzida - o seu propósito: “(...) compareceram os senhores além de outros subscritos, ao escopo de lançar as bases de uma Sociedade Italiana tendo por objetivo socorrer aqueles compatriotas que por doença, desgraças em trabalho e outras desventuras, se encontram em necessidade de serem socorridos ou repatriado”. Em Amparo não há nenhuma pesquisa ou documentos que detalhe como, de fato, a Mútua foi fundada ou quais eram os critérios para se associar, assim como são precários os dados sobre o número de imigrantes e quais classes sociais pertenciam à Mútua. O historiador Roberto Pastana Teixeira Lima - que possui duas qualidades profundas: “o saber sobre sua cidade e o amor que a ela consagra”, como relatou certa vez o professor da Unicamp Jorge Coli -, enquanto folheia as páginas amareladas dos almanaques de Amparo de 1894 e 1888 - um dos pouquíssimos materiais que a cidade tem sobre o assunto – conta, cabisbaixo, que muitas informações estão perdidas na história da cidade.
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Falta de interesse de alguns, comodismo de outros e, principalmente, a falta de memória que assola não só a cidade, mas grande parcela do país, o escolhido por esses milhões de italianos e outros aventureiros de diversas partes do mundo para ser a terra que abrigaria suas famílias; longe da pobreza e perto de uma vida melhor, que aliás nem chegou a se concretizar para muitos. “Ninguém ainda se propôs a fazer a pesquisa sobre a imigração italiana em Amparo”, lamenta o historiador. Os poucos documentos revelam que a Mútua teve duas sedes provisórias antes de ter sua própria sede: um charmoso e espaçoso prédio na esquina entre a rua Humberto Beretta e a Prudente de Morais foi uma delas. O prédio hoje pode ser visto, mas somente nas fotografias dos cartões postais e livros da cidade.
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Ele foi destruído – como tantos outros – e o local hoje acolhe uma casa simples com varanda na frente, logo na calçada. Mais tarde, em homenagem ao centenário de Amparo, em oito de abril de 1929, a colônia italiana ofereceu um magnífico coreto próximo ao marco zero da cidade, um dos mais belos monumentos históricos. Foi neste ano também, no dia 23 de março, em comemoração à data de início da imigração italiana, que após três anos em construção, o prédio, que hoje está sendo disputado pelos 96 sócios que ainda restaram na mútua, foi inaugurado. Nas décadas depois, o prédio funcionou como um espaço recreativo. Sobram saudades. “Aos 15 ou 16 anos, fui em uma festa junina na Mútua. Vestida de caipira, dancei muito”, relembra Deise Aparecida, Dorigan de pai, Marchiori de mãe, que fala alto e com as mãos e faz o próprio macarrão, da massa aos cortes em fios com a faca amolada na soleira da porta ou na guia da calçada. “Não fazem mais facas como antigamente. Essas não cortam nem água”.

Pedro Armellini com o abaixoassinado em mãos

O historiador Liminha, como é conhecido, conta que entre os objetivos da construção do prédio, estava fazer eventos. Com vários salões e salas, as festas fizeram história na cidade. A Mútua também alugava alguns espaços. Em uma das salas funcionava um bar chamado de Toca da Onça, bastante frequentado pela população. Situado na esquina em frente à Catedral Nossa Senhora do Amparo, restam das histórias que nascem nas situações e ecoam sem autores no decorrer do tempo, que o prédio foi uma afronta ao Clube Oito de Setembro, localizado na outra esquina, do outro lado da rua e reduto de portugueses. Conta a lenda – que não é confirmada, mas todos conhecem a estória - que os dois prédios dividiam a sociedade amparense.

No Clube Oito de Setembro permaneciam os carnavais das famílias tradicionais da cidade, enquanto a mútua, juntava os imigrantes e os descendentes que se enraizavam nas primeiras décadas do século XX. “Comedor de polenta!”, diziam os frequentadores do clube quando um italiano ousava passar na calçada do prédio. Por birra, ou não, os sócios da Mútua construíram um prédio muito mais majestoso, rico em detalhes do piso ao telhado, calculadamente na outra calçada. Mesmo com a construção do segundo andar do Clube Oito, a torre do prédio dos “carcamanos” faz com que ele seja dos dois, o que mais se aproxima do céu. “Mas não podemos dizer que eram oposições de classes sociais divergentes, pois esses italianos já possuíam potencial econômico, visto disso é a construção do próprio prédio”, conta Liminha, apoiado em suas suposições na falta de documentos concretos. O Clube Oito de Setembro ainda hoje promove festas. As juninas e as de “flash back” são as mais procuradas.

O prédio da Mútua está fechado. Até mesmo para as pombas que ainda ali procuram seus ninhos tirados por conta da reforma feita para a devolução do prédio. Nos almanaques da cidade ainda constam outras duas entidades italianas: Grêmio Recreativo Italiano e a Mútua Giuseppe Garibaldi, esta que no de 1894, aparece grafada em português, José Garibaldi. Muito pouco se sabe sobre elas, as suposições cerceiam a ideia de que poderiam ser formadas por uma classe de imigrantes mais pobres, camponeses que lidavam com o árduo trabalho na roça; os que suavam nas lavouras de café e que transformaram a cidade de Amparo, no tempo áureo do “ouro preto”, a quarta mais importante cidade do estado de São Paulo e uma das maiores produtoras do mundo. Rica para os barões e ainda pobre para os agricultores.

A discussão quanto à venda ou não do prédio parece estar longe de um desfecho. A secretária do consultório de Pedro Armellini, Roberta Bianchini Caliatto, mostra cansaço quando comentam o assunto da venda do prédio e do abaixoassinado. “É que escuto essa discussão todos os dias. As pessoas vêm aqui para discutir esse assunto com o doutor”, explica meio sem graça. Mas, logo depois, mostra uma paixão pela imigração italiana que talvez até ela mesma desconheça. “Mas eles não vão poder vender. Meu bisavô ajudou a construir aquele prédio. Não vão vender!”, diz com uma certa, mas compreensível, raiva nos olhos.

Reportagem: Adilson Jorge e
Bruna Lidiane

Fotos: Adilson
Jorge

Sábado, Dezembro 26, 2009

Parte III - Ensaio jornalístico "INSPIRAÇÃO NO BOTECO"

Para ler a parte I, clique aqui. Parte II, aqui.


UM ÁLCOOL

Alguns, como um amigo meu escritor – ganhador de prêmios de poesia e contos -, Edmar Monteiro Filho, questiona: “Hoje, penso que a nossa sociedade cultiva muito essa coisa de reunião ao redor de um copo qualquer. Não acho que seja a questão do boteco que faz a coisa virar, mas sim o álcool.” É uma coisa a ser considerada já que as reuniões de pessoas ligadas às artes são, mas não por obrigatoriedade, regadas a álcool. Para ele, a troca de ideias ao redor de uma mesa é uma instituição.

O boteco vira um local que possibilita que uma integração e troca de ideias aconteçam. “Então vamos naquele boteco hoje, professores”, diz meu amigo Edmar aos amigos depois de encerrar a Oficina de Contos, em Amparo, interior de São Paulo.

O álcool tem seus efeitos. Seus prós e contras. Liberta ou aprisiona. Os sintomas são conhecidos, os que nos interessam: suscetibilidade emocional, euforia ou depressão e comportamento desinibido. Dores de cabeça, náuseas, vômito entre outros, deixamos de fora para que aqueles que interessem sobre, consultar alguma tese científica que explique e não essa divagação.

“Quando estou imaginando uma história nova, quando leio algo interessante, acho que é preciso compartilhar para dar forma às ideias que nascem daí. O boteco é a chance de encontrar interlocutores e o álcool - até um certo limite - nos torna mais suscetíveis à conversa, à assimilação e propagação das ideias”, Edmar me confessou.

LÁZARO
Quem não pode morrer
arranque a lápide
levante e ande
Até
quando?
Até onde?
(Edmar Monteiro Filho)